A ficha não tinha caído direito. A escola tinha fechado, o visto não saiu. Comecei a pensar que Deus não queria que eu fosse embora. Ou alguém estava torcendo pra tudo dar errado na minha vida. No começo daquela semana eu tinha ido à faculdade para me despedir dos meus amigos. Todos eles me desejaram "boa sorte", "felicidades" e etc, e repentinamente eu volto.
O que eu me lembro daquele dia era ter ido até a Mundial Intercâmbio para remarcar passagem, e fazer a carteirinha de vacinação internacional. Minha prima, Lucila, foi comigo pra cima e pra baixo. Como eu disse, ela vai pro céu. Sem dúvidas.
Remarcamos a passagem para o dia 20 de março, na esperança do visto sair. A minha expectativa estava enorme.
A tarifa de adiamento de passagem foi dividida entre eu e a Mundial. Pagamos, agora era só esperar. Nesse meio tempo, a minha mãe trocou de carro, e eu fiquei mais ansioso. Depois de alguns dias o visto chegou. Eu não podia, eu não conseguiria ficar mais feliz. O visto tinha chegado na minha casa. Abri o pacote e o meu passaporte estava lá, com o visto australiano anexado. Eu era só alegria. Aquele "selo" laranja e amarelo, com os símbolos australianos, a carta da escola e da Embaixada Australiana... Tudo estava lá. Agora só faltava entrar no avião.
Eu consigo lembrar como foi o dia 20 de março. Eu acordei muito ansioso. Tomei banho, terminei de colocar umas coisas na mala (que de tão grande até parece o malão dos filmes do "Harry Potter"), separei itens para a mala de mão: uma troca de roupa, afinal eu iria dormir em Dubai, itens de higiene pessoal, um livro, uma jaqueta de frio, caderno e canetas para escrever... Tive meu último almoço com minha família antes de embarcar. Quase nada desceu, eu estava muito ansioso.
Pegamos meu pai na casa dele e fomos todos nós: eu (logicamente), meus pais e meus irmãos. Pé na estrada. Saímos perto das 14h, e chegamos no apartamento do meu tio perto das 20 ou 21h. O trânsito de São Paulo estava me deixou louco pela primeira vez. Decidimos parar no apê do tio porque ele sabia o caminho até o Aeroporto de Guarulhos. Me despedi da tia Bel lá mesmo, porque a tia não gosta de despedidas. E eu descobri que eu também não. Chorei.
Com a adição do tio Júnior e da Lucila, fomos todos para o aeroporto. Chegamos lá perto das 22h. Procuramos o guichê da Emirates e fiz meu check-in. Minha mala pegou o caminho da esteira com destino ao avião. A cada minuto eu só ficava mais ansioso. Liguei para os meus padrinhos para me despedir deles e agradecer por tudo. Aliás, quase toda a família ligou. Inclusive minha avó que estava voltando de um cruzeiro. Ela chorou no telefone. E eu também. Sem contar que o meu pai fez algo que eu nunca achei que ele faria: comprou McDonald's pra todo mundo! E eu digo isso porque ele é "contra comer carne de minhoca". Eu adoro comer um Big Mac, sou fã confesso, mas naquele momento, se eu comesse algo, eu vomitaria. Minha ansiedade estava latente, atacando todo o meu sistema digestivo. Eu estava queimando por dentro.
Com o fim da janta, meu tio achou que já era hora de dizer tchau. "Mas já?" foi a única coisa que eu conseguia pensar. Me despedi de todo mundo chorando e batendo fotos. Eu tava vermelho, com os olhos mais vermelhos de tanto chorar. Não queria ir embora. O mais difícil foi me despedir da minha mãe. Aquilo sim foi difícil. Nós dois choramos e choramos. Seria eu e minha mochila até chegar no outro lado do mundo. Fizeram o raio-X da minha mochila, e fui para a sala de embarque. Tremendo, mais ansioso do que em qualquer experiência vivida. Sentei e tinha de esperar pelo menos mais 1h até embarcar. Nesse meio tempo, um senhor negro, magro, mais alto que eu, lutava pra não voltar ao país dele. Os policiais queriam deportá-lo, e ele se prendeu a uma pilastra e pedia "Another chance, please!" (Outra chance, por favor). Com muito custo ele foi levado de lá para "conversar" com os policiais.
De repente, aeromoças, pilotos e toda a tripulação do avião começam a entrar no avião. Em poucas horas seria minha vez.
Assim que começaram a anunciar o voô, já entrei na fila. Tinha um casal de brasileiros na minha frente. Prestei bem atenção neles, não sabia o por quê, mas eles acabaram me ajudando muito, posteriormente.
- Boa viagem! - a atendente me disse. Agradeci, era o que eu esperava, uma boa viagem. Assim que entrei no avião, me assustei com a cabine. Não muito grande, bonita, confortável, com bastante espaço para as pernas... Procurei meu assento e percebi que não era por ali. Fui andando... O meu assento era na área "econômica". E devo dizer que não é ruim. As cadeiras não são tão grandes, nem tão reclináveis como as que eu tinha visto na área "business", mas são bem confortáveis e aconchegantes. Chegando no meu assento, encaixei minha mala de mão no porta-mala acima de mim. Havia na minha poltrona (parece uma poltroninha, o assento era rosa, com flores pequenas bordadadas) um cobertor, tapa-olho, escova e pasta de dente, tampões para o ouvido, um fone de ouvido e adesivos para avisar a aeromoça se o viajante quer ser acordado em caso de refeição. Na minha frente tinha uma televisão acoplada à cadeira da frente. Eu devo dizer, o sistema de entretenimento da Emirates é fantástico. Sentei na janela, o assento ao meu lado estava vazio, e o outro estava ocupado por um indiano gente-boa.
Eu só queria que aquele avião decolasse logo, eu queria chegar logo na Austrália. Eu estava consumido pela minha ansiedade.
Depois de uma meia hora, o avião ligou. Começou a se mexer, virar, correr, balançar, levantar e de repente eu estava no ar. O aeroporto ficou pequeno, aliás, tudo ficou pequeno. Eu só via as luzes da cidade se contrapondo à escuridão da madrugada. Tudo ficou para trás, mas a minha jornada só estava começando.
adoreeeeeeeeeeei
ReplyDeletebejo tur