A ficha não tinha caído direito. A escola tinha fechado, o visto não saiu. Comecei a pensar que Deus não queria que eu fosse embora. Ou alguém estava torcendo pra tudo dar errado na minha vida. No começo daquela semana eu tinha ido à faculdade para me despedir dos meus amigos. Todos eles me desejaram "boa sorte", "felicidades" e etc, e repentinamente eu volto.
O que eu me lembro daquele dia era ter ido até a Mundial Intercâmbio para remarcar passagem, e fazer a carteirinha de vacinação internacional. Minha prima, Lucila, foi comigo pra cima e pra baixo. Como eu disse, ela vai pro céu. Sem dúvidas.
Remarcamos a passagem para o dia 20 de março, na esperança do visto sair. A minha expectativa estava enorme.
A tarifa de adiamento de passagem foi dividida entre eu e a Mundial. Pagamos, agora era só esperar. Nesse meio tempo, a minha mãe trocou de carro, e eu fiquei mais ansioso. Depois de alguns dias o visto chegou. Eu não podia, eu não conseguiria ficar mais feliz. O visto tinha chegado na minha casa. Abri o pacote e o meu passaporte estava lá, com o visto australiano anexado. Eu era só alegria. Aquele "selo" laranja e amarelo, com os símbolos australianos, a carta da escola e da Embaixada Australiana... Tudo estava lá. Agora só faltava entrar no avião.
Eu consigo lembrar como foi o dia 20 de março. Eu acordei muito ansioso. Tomei banho, terminei de colocar umas coisas na mala (que de tão grande até parece o malão dos filmes do "Harry Potter"), separei itens para a mala de mão: uma troca de roupa, afinal eu iria dormir em Dubai, itens de higiene pessoal, um livro, uma jaqueta de frio, caderno e canetas para escrever... Tive meu último almoço com minha família antes de embarcar. Quase nada desceu, eu estava muito ansioso.
Pegamos meu pai na casa dele e fomos todos nós: eu (logicamente), meus pais e meus irmãos. Pé na estrada. Saímos perto das 14h, e chegamos no apartamento do meu tio perto das 20 ou 21h. O trânsito de São Paulo estava me deixou louco pela primeira vez. Decidimos parar no apê do tio porque ele sabia o caminho até o Aeroporto de Guarulhos. Me despedi da tia Bel lá mesmo, porque a tia não gosta de despedidas. E eu descobri que eu também não. Chorei.
Com a adição do tio Júnior e da Lucila, fomos todos para o aeroporto. Chegamos lá perto das 22h. Procuramos o guichê da Emirates e fiz meu check-in. Minha mala pegou o caminho da esteira com destino ao avião. A cada minuto eu só ficava mais ansioso. Liguei para os meus padrinhos para me despedir deles e agradecer por tudo. Aliás, quase toda a família ligou. Inclusive minha avó que estava voltando de um cruzeiro. Ela chorou no telefone. E eu também. Sem contar que o meu pai fez algo que eu nunca achei que ele faria: comprou McDonald's pra todo mundo! E eu digo isso porque ele é "contra comer carne de minhoca". Eu adoro comer um Big Mac, sou fã confesso, mas naquele momento, se eu comesse algo, eu vomitaria. Minha ansiedade estava latente, atacando todo o meu sistema digestivo. Eu estava queimando por dentro.
Com o fim da janta, meu tio achou que já era hora de dizer tchau. "Mas já?" foi a única coisa que eu conseguia pensar. Me despedi de todo mundo chorando e batendo fotos. Eu tava vermelho, com os olhos mais vermelhos de tanto chorar. Não queria ir embora. O mais difícil foi me despedir da minha mãe. Aquilo sim foi difícil. Nós dois choramos e choramos. Seria eu e minha mochila até chegar no outro lado do mundo. Fizeram o raio-X da minha mochila, e fui para a sala de embarque. Tremendo, mais ansioso do que em qualquer experiência vivida. Sentei e tinha de esperar pelo menos mais 1h até embarcar. Nesse meio tempo, um senhor negro, magro, mais alto que eu, lutava pra não voltar ao país dele. Os policiais queriam deportá-lo, e ele se prendeu a uma pilastra e pedia "Another chance, please!" (Outra chance, por favor). Com muito custo ele foi levado de lá para "conversar" com os policiais.
De repente, aeromoças, pilotos e toda a tripulação do avião começam a entrar no avião. Em poucas horas seria minha vez.
Assim que começaram a anunciar o voô, já entrei na fila. Tinha um casal de brasileiros na minha frente. Prestei bem atenção neles, não sabia o por quê, mas eles acabaram me ajudando muito, posteriormente.
- Boa viagem! - a atendente me disse. Agradeci, era o que eu esperava, uma boa viagem. Assim que entrei no avião, me assustei com a cabine. Não muito grande, bonita, confortável, com bastante espaço para as pernas... Procurei meu assento e percebi que não era por ali. Fui andando... O meu assento era na área "econômica". E devo dizer que não é ruim. As cadeiras não são tão grandes, nem tão reclináveis como as que eu tinha visto na área "business", mas são bem confortáveis e aconchegantes. Chegando no meu assento, encaixei minha mala de mão no porta-mala acima de mim. Havia na minha poltrona (parece uma poltroninha, o assento era rosa, com flores pequenas bordadadas) um cobertor, tapa-olho, escova e pasta de dente, tampões para o ouvido, um fone de ouvido e adesivos para avisar a aeromoça se o viajante quer ser acordado em caso de refeição. Na minha frente tinha uma televisão acoplada à cadeira da frente. Eu devo dizer, o sistema de entretenimento da Emirates é fantástico. Sentei na janela, o assento ao meu lado estava vazio, e o outro estava ocupado por um indiano gente-boa.
Eu só queria que aquele avião decolasse logo, eu queria chegar logo na Austrália. Eu estava consumido pela minha ansiedade.
Depois de uma meia hora, o avião ligou. Começou a se mexer, virar, correr, balançar, levantar e de repente eu estava no ar. O aeroporto ficou pequeno, aliás, tudo ficou pequeno. Eu só via as luzes da cidade se contrapondo à escuridão da madrugada. Tudo ficou para trás, mas a minha jornada só estava começando.
Tuesday, February 1, 2011
Thursday, January 20, 2011
Então você vai para a Austrália! [parte 3]
Eu parei por alguns segundos. Como assim a escola de inglês fechou? Era fevereiro, a viagem seria em pouco mais de um mês. E a escola fechou? Eu ficava pensando se isso podia acontecer e se, legalmente, ela poderia ser fechada. Não poderia! Como eu iria fazer? O que iria acontecer? Eu não viajaria mais? Meu dinheiro seria devolvido?
- Não. Você vai viajar, mas o processo do seu visto vai ficar parado até o governo australiano te achar uma escola nova. E isso não deve demorar. No entanto, você pelo menos deu a sorte que a escola fechou e você ainda estar aqui, no Brasil. Eu tenho pessoas que já estão lá, e sem estudo... Sem fazer nada. - ela estava vendo o lado positivo da coisa toda. Pensando nesta perspectiva, até que eu estava bem.
E por telefone ela me explicou o que eu poderia fazer: esperar. Ser paciente. Tudo bem, afinal, eu iria para Santos em poucos dias, e depois faria um cruzeiro de 4 dias com a minha família, saíriamos de Santos e iríamos até Ilha Grande no Rio de Janeiro. Depois disso, eu tinha quase uma semana no Brasil. Na sexta-feira do dia 05 de março de 2010 eu embarcaria com rumo ao desconhecido.
Não sei até hoje como a moça do intercâmbio achou o número do telefone celular da minha mãe, mas sei que ela me ligou em Búzios trazendo boas notícias:
- Artur, o governo australiano te achou uma escola! É a Griffith University. Você vai fazer aula numa faculdade, rodeado de pessoas falantes de inglês... Vai ser ótimo para você! E aí, você topa?
- Mas é claro! - eu não tinha dúvidas. É claro que sim!
Pronto. Agora eu tinha uma escola, e só faltava o meu visto sair. A vida não poderia melhorar a meu favor. Depois desta notícia, aproveitei o cruzeiro mais ainda. Búzios, no Rio de Janeiro é linda, quente... Me encantei pela cidade. Em Ilha Grande não tivemos a mesma sorte. Choveu muito, resultado, saímos do navio só pra ver umas lojinhas e voltamos logo em seguida. O problema da chuva foi trazer grandes ondas à noite. Eu e meus irmãos não conseguíamos sair de nossas camas. O navio parecia subir e descer, cortando as ondas. E nosso estômago acompanhava tudo: subia e descia. Eu estava tonto, tonto. No final, fomos ao cassino jogar um pouco. Não ganhamos quase nada, mas a experiência valeu a pena.
A semana passou correndo depois de termos chegado do cruzeiro. E no entanto, nada de visto sair. Nem previsão. A escola precisava mandar o código da minha matrícula, e nada. Na quarta-feira, dia 03 de março, fui verificar se a vacina havia sido tomada. Onde estava minha carteirinha de vacinação? Nem sinal dela. E o posto de saúde já tinha fechado. Fiquei preocupado, e então, na manhã do dia seguinte, fui no posto. Na minha ficha constava um ponto de interrogação na vacina de febre amarela. Eu tinha certeza que tinha tomado, mas quem quer que seja que me deu a vacina não tinha tanta certeza, aparentemente. No final, tomei a vacina de novo, após a minha mãe ter ligado lá e pedir a aplicação da mesma. Próximo passo era transformar a carteirinha de vacinação n carteirinha de vacinação internacional. E isso eu só poderia fazer no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Numa atitude desesperada, e contra a vontade da minha mãe, fui a São Paulo no dia 05 de março, no dia do meu embarque para resolver o problema da vacinação. Minha prima Lucila foi me pegar na rodoviária (ela é uma santa! Vai pro céu com certeza). No caminho pra casa dela, eu liguei para a Mundial para saber a situação do visto, e então:
- Artur, já está tarde. Seu visto não sai mais hoje, vamos ter de remarcar a viagem!
- Não. Você vai viajar, mas o processo do seu visto vai ficar parado até o governo australiano te achar uma escola nova. E isso não deve demorar. No entanto, você pelo menos deu a sorte que a escola fechou e você ainda estar aqui, no Brasil. Eu tenho pessoas que já estão lá, e sem estudo... Sem fazer nada. - ela estava vendo o lado positivo da coisa toda. Pensando nesta perspectiva, até que eu estava bem.
E por telefone ela me explicou o que eu poderia fazer: esperar. Ser paciente. Tudo bem, afinal, eu iria para Santos em poucos dias, e depois faria um cruzeiro de 4 dias com a minha família, saíriamos de Santos e iríamos até Ilha Grande no Rio de Janeiro. Depois disso, eu tinha quase uma semana no Brasil. Na sexta-feira do dia 05 de março de 2010 eu embarcaria com rumo ao desconhecido.
Não sei até hoje como a moça do intercâmbio achou o número do telefone celular da minha mãe, mas sei que ela me ligou em Búzios trazendo boas notícias:
- Artur, o governo australiano te achou uma escola! É a Griffith University. Você vai fazer aula numa faculdade, rodeado de pessoas falantes de inglês... Vai ser ótimo para você! E aí, você topa?
- Mas é claro! - eu não tinha dúvidas. É claro que sim!
Pronto. Agora eu tinha uma escola, e só faltava o meu visto sair. A vida não poderia melhorar a meu favor. Depois desta notícia, aproveitei o cruzeiro mais ainda. Búzios, no Rio de Janeiro é linda, quente... Me encantei pela cidade. Em Ilha Grande não tivemos a mesma sorte. Choveu muito, resultado, saímos do navio só pra ver umas lojinhas e voltamos logo em seguida. O problema da chuva foi trazer grandes ondas à noite. Eu e meus irmãos não conseguíamos sair de nossas camas. O navio parecia subir e descer, cortando as ondas. E nosso estômago acompanhava tudo: subia e descia. Eu estava tonto, tonto. No final, fomos ao cassino jogar um pouco. Não ganhamos quase nada, mas a experiência valeu a pena.
A semana passou correndo depois de termos chegado do cruzeiro. E no entanto, nada de visto sair. Nem previsão. A escola precisava mandar o código da minha matrícula, e nada. Na quarta-feira, dia 03 de março, fui verificar se a vacina havia sido tomada. Onde estava minha carteirinha de vacinação? Nem sinal dela. E o posto de saúde já tinha fechado. Fiquei preocupado, e então, na manhã do dia seguinte, fui no posto. Na minha ficha constava um ponto de interrogação na vacina de febre amarela. Eu tinha certeza que tinha tomado, mas quem quer que seja que me deu a vacina não tinha tanta certeza, aparentemente. No final, tomei a vacina de novo, após a minha mãe ter ligado lá e pedir a aplicação da mesma. Próximo passo era transformar a carteirinha de vacinação n carteirinha de vacinação internacional. E isso eu só poderia fazer no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Numa atitude desesperada, e contra a vontade da minha mãe, fui a São Paulo no dia 05 de março, no dia do meu embarque para resolver o problema da vacinação. Minha prima Lucila foi me pegar na rodoviária (ela é uma santa! Vai pro céu com certeza). No caminho pra casa dela, eu liguei para a Mundial para saber a situação do visto, e então:
- Artur, já está tarde. Seu visto não sai mais hoje, vamos ter de remarcar a viagem!
Friday, January 7, 2011
Então você vai para a Austrália! [parte 2]
Eu sou muito ansioso. Sempre fui. Por fora aparento ser muito calmo e sereno, mas é só prestar mais atenção que fica fácil pra todo mundo ver: estalo os dedos, lasco as unhas, minhas mãos ficam suadas e de repente eu começo a olhar pro nada, na tentativa de esquecer o que está acontecendo. Isso sempre acontece, independentemente se algo bom ou ruim estiver para acontecer. Mas, naquela noite em que minha mãe me autorizou a ir para a Austrália, dormi tranquilamente. Até estranhei ter pego no sono tão depressa.
Na manhã seguinte tudo o que eu queria era anunciar ao mundo que eu estaria partindo em rumo ao desconhecido. Entrei no meu Facebook e publiquei a mensagem de que estaria indo embora. Nenhum comentário, mas tudo bem. Não estava esperando estripulias. Dei uma olhada em umas fotos para ver como a Austrália era, e só. Estava feliz, e tudo o que eu queria era compartilhar as boas novas com a turma da faculdade.
Não me lembro da reação de todos os meus amigos quando eu contei a novidade, mas lembro das reações da Camila e da Elaíse. Ambas foram as minhas melhores amigas durante todo o ano letivo. Quando eu contei para a Camila, ela não ficou nem um pouco feliz com a notícia:
- Você não vai. Não pode me deixar aqui, sozinha. - ela disse isso séria, como se a minha ida pudesse fazê-la largar a faculdade. Ela tinha um problema com estar no meio de muita gente. Aliás, ela tem até hoje. Eu também tenho, mas não chega a ser como ela.
- Mas é lógico que vou! Você pode vir comigo, vamos? Não quer ir? - eu perguntei na maior inocência, afinal, na minha cabeça era fácil pegar um empréstimo no banco e pagar depois. Hoje eu sei bem que não é assim.
- Você sabe muito bem que o meu dinheiro é pra pagar a faculdade e as minhas contas. Eu não posso! Fica, por favor! - ela não queria que eu a deixasse. Achei lindo isso, mas eu não iria ficar. Não sou desses que largam o sonho pra trás. Eu sabia o que queria e iria até o fim.
A Elaíse chegou pouco tempo depois. Contei a novidade para ela e ela ficou extasiada.
- Quero ir também. Quanto é? Iria ser legal, e de repente o Milton pode ir comigo! - o Milton é/era namorado dela. Seria legal se eles fossem, mas acabaram não indo.
A Elaíse me dava apoio, pensando no meu bem. Ela estava feliz por eu realizar um sonho, a Camila não.
Fui embora feliz. Todo mundo me apoiava e tudo mais. Mas, lá se foi o primeiro dia. E eu não fiz nada para conseguir visto, escola de inglês, e etc. Algo que eu devo colocar para brasileiros que querem ir para a Austrália: com exceção do visto de turismo e de negócios, se você quiser ir pra lá, você tem que estudar. Por ser brasileiro, você deve estudar. Europeus, por exemplo, podem entrar lá com o visto de "working holiday" (trabalho de férias). Brasuca, não.
Anyway (depois que aprendi a usar esta palavra, uso ela sempre!), não tinha feito nada para começar a materializar a viagem. Foi então que, numa viagem a São Paulo, conversei com a Marina, a prima que mora lá na Austrália há alguns anos, e ela me disse que fez todo o procedimento dela com uma agência de intercâmbio, a Mundial Intercâmbio. A minha prima Lucila, que aliás é uma companheira e tanto pra mim, me levou para duas agências diferentes em SP e eu fui em uma em Araraquara, minha cidade natal. Devo dizer que, quando você for comparar preços, sempre tenha 3 opções para comparação, isso foi uma das coisas que eu aprendi com a Lú. No final das contas acertamos com a Mundial. Pegamos o orçamento das escolas, e decidimos: eu iria morar em Brisbane, no nordeste da Austrália, capital do Estado de Queensland, a Marina tinha me permitido ficar um tempo na casa dela, e eu estudaria na GEOS, uma escola de inglês.
Eu queria aperfeiçoar meu inglês. Saber, eu já sabia. Mas eu queria melhorar, eu ainda não conseguia assistir filmes, seriados e derivados sem legenda. Tudo ia praticamente bem, e eu digo praticamente, porque correr atrás de toda a documentação para o visto dá uma canseira. Até vacina que eu já tinha tomado (febre amarela) tive de tomar de novo porque ela não constava na carteira de vacinação. Documentos dos meu padrinho, da minha mãe, meus... Todos autenticados e tudo mais... No final das contas vale a pena todo o esforço, mas até valer, cansa! Pra quem quer ir estudar, morar, trabalhar e etc, devo dizer que o visto australiano e muito burocrático.
Minha viagem estava marcada para o dia 05 de março de 2010. Estava tudo acertado, até eu receber uma ligação de São Paulo, direto da Mundial.
- Artur, tudo bem? - a moça da agência nunca tinha me ligado antes, sempre era eu quem ligava. Devia ser algo importante, eu supus.
- Tudo bem por aqui. - não parecia ser nada bom, percebi uma hesitação do outro lado da linha.
- Preciso te avisar uma coisa: a GEOS, a escola que você iria fazer inglês fechou!
Na manhã seguinte tudo o que eu queria era anunciar ao mundo que eu estaria partindo em rumo ao desconhecido. Entrei no meu Facebook e publiquei a mensagem de que estaria indo embora. Nenhum comentário, mas tudo bem. Não estava esperando estripulias. Dei uma olhada em umas fotos para ver como a Austrália era, e só. Estava feliz, e tudo o que eu queria era compartilhar as boas novas com a turma da faculdade.
Não me lembro da reação de todos os meus amigos quando eu contei a novidade, mas lembro das reações da Camila e da Elaíse. Ambas foram as minhas melhores amigas durante todo o ano letivo. Quando eu contei para a Camila, ela não ficou nem um pouco feliz com a notícia:
- Você não vai. Não pode me deixar aqui, sozinha. - ela disse isso séria, como se a minha ida pudesse fazê-la largar a faculdade. Ela tinha um problema com estar no meio de muita gente. Aliás, ela tem até hoje. Eu também tenho, mas não chega a ser como ela.
- Mas é lógico que vou! Você pode vir comigo, vamos? Não quer ir? - eu perguntei na maior inocência, afinal, na minha cabeça era fácil pegar um empréstimo no banco e pagar depois. Hoje eu sei bem que não é assim.
- Você sabe muito bem que o meu dinheiro é pra pagar a faculdade e as minhas contas. Eu não posso! Fica, por favor! - ela não queria que eu a deixasse. Achei lindo isso, mas eu não iria ficar. Não sou desses que largam o sonho pra trás. Eu sabia o que queria e iria até o fim.
A Elaíse chegou pouco tempo depois. Contei a novidade para ela e ela ficou extasiada.
- Quero ir também. Quanto é? Iria ser legal, e de repente o Milton pode ir comigo! - o Milton é/era namorado dela. Seria legal se eles fossem, mas acabaram não indo.
A Elaíse me dava apoio, pensando no meu bem. Ela estava feliz por eu realizar um sonho, a Camila não.
Fui embora feliz. Todo mundo me apoiava e tudo mais. Mas, lá se foi o primeiro dia. E eu não fiz nada para conseguir visto, escola de inglês, e etc. Algo que eu devo colocar para brasileiros que querem ir para a Austrália: com exceção do visto de turismo e de negócios, se você quiser ir pra lá, você tem que estudar. Por ser brasileiro, você deve estudar. Europeus, por exemplo, podem entrar lá com o visto de "working holiday" (trabalho de férias). Brasuca, não.
Anyway (depois que aprendi a usar esta palavra, uso ela sempre!), não tinha feito nada para começar a materializar a viagem. Foi então que, numa viagem a São Paulo, conversei com a Marina, a prima que mora lá na Austrália há alguns anos, e ela me disse que fez todo o procedimento dela com uma agência de intercâmbio, a Mundial Intercâmbio. A minha prima Lucila, que aliás é uma companheira e tanto pra mim, me levou para duas agências diferentes em SP e eu fui em uma em Araraquara, minha cidade natal. Devo dizer que, quando você for comparar preços, sempre tenha 3 opções para comparação, isso foi uma das coisas que eu aprendi com a Lú. No final das contas acertamos com a Mundial. Pegamos o orçamento das escolas, e decidimos: eu iria morar em Brisbane, no nordeste da Austrália, capital do Estado de Queensland, a Marina tinha me permitido ficar um tempo na casa dela, e eu estudaria na GEOS, uma escola de inglês.
Eu queria aperfeiçoar meu inglês. Saber, eu já sabia. Mas eu queria melhorar, eu ainda não conseguia assistir filmes, seriados e derivados sem legenda. Tudo ia praticamente bem, e eu digo praticamente, porque correr atrás de toda a documentação para o visto dá uma canseira. Até vacina que eu já tinha tomado (febre amarela) tive de tomar de novo porque ela não constava na carteira de vacinação. Documentos dos meu padrinho, da minha mãe, meus... Todos autenticados e tudo mais... No final das contas vale a pena todo o esforço, mas até valer, cansa! Pra quem quer ir estudar, morar, trabalhar e etc, devo dizer que o visto australiano e muito burocrático.
Minha viagem estava marcada para o dia 05 de março de 2010. Estava tudo acertado, até eu receber uma ligação de São Paulo, direto da Mundial.
- Artur, tudo bem? - a moça da agência nunca tinha me ligado antes, sempre era eu quem ligava. Devia ser algo importante, eu supus.
- Tudo bem por aqui. - não parecia ser nada bom, percebi uma hesitação do outro lado da linha.
- Preciso te avisar uma coisa: a GEOS, a escola que você iria fazer inglês fechou!
Wednesday, January 5, 2011
Então você vai para a Austrália.
Olá! Feliz ano para todos!! Espero que 2011 traga ótimas coisas para todo mundo.
Bom, andei muito tempo sem postar nada, pensando em algo que merecesse um post por aqui. E foi durante a pequena estadia em Santos que me apareceu um tema. Fui pegar conchas com minha tia na praia e disse que estava passando por uma "crise criativa" e ela me sugeriu escrever sobre minha aventura do outro lado do mundo. Adorei!! Como não pensei nisto antes? Vai ser uma série de posts sobre isso, afinal, foi muito tempo do outro lado do mundo!
Aqui vai a primeira parte, uma introdução, como a ideia de ir para a Austrália surgiu. Espero que gostem! Um abraço!
- Então você vai para a Austrália! – minha mãe me disse isso com um sorriso de expectativa e um olhar ansioso. Em dois segundos eu processei dentro da minha cabeça o que ela tinha acabado de dizer. Sorri. Sorri um pouco temeroso, mas sorri. Afinal, era o que eu sempre quis, certo? Certo?
Usei esta pequena introdução para expressar que, apesar de desejada, esta viagem ao desconhecido me dava medo. Não foi algo do tipo: “Eu vou e não volto mais”, ou “Estou realizando um sonho”. Parcialmente, o que eu acabei de dizer é verdade. Eu sempre pensei nisso, mas nunca seriamente. Nunca parei realmente para pensar que a ida a um país diferente pudesse me proporcionar. Ficar longe da família, amigos, minha faculdade que eu tanto adorava... Ter de sacrificar tudo isso me doeu. Mas valeu a pena.
Eu tinha acabado de sair da empresa de supermercados que eu trabalhava. Eu até gostava de lá, mas com o passar do tempo, a falta de perspectivas para subir de cargo, corte de horas extras e as leis que regiam o estabelecimento me fizeram largar o emprego. Já estava lá há um ano e quatro meses e sem férias. Estava cansado e saturado de tudo. Minha mãe me ajudou e eu saí de lá, num acordo com o supermercado. Durante todo o tempo que trabalhei lá, economizei dinheiro. Sempre. Era meio mão-fechada com dinheiro. Gastava com os gastos da faculdade e só. Raramente comprava algo pra mim, a idéia de perder dinheiro me assombrava e me assombra até hoje. Quando fui receber meus acertos, recebi uma boa quantia, que somada ao que eu já tinha guardado no banco, me deixaria sossegado por vários meses, se eu quisesse gastar só com a faculdade, logicamente.
Fiquei um mês em casa. Eu dormia até tarde, ia para a faculdade à noite, poucas preocupações. Era bom. Me entretia jogando “Farmville” no Facebook, fazia almoço pro pessoal de casa... E nada! Absolutamente nada!
Depois de uns quinze dias, me deu canseira de ficar em casa. Logo, o ano letivo acabaria e depois eu não teria mais nada pra fazer, o que me obrigaria a procurar um emprego. E isso iria acontecer inevitavelmente. Como foi que depois de alguns dias eu havia me cansado da boa vida? Como? Mas eu tinha me cansado. A vontade de procurar emprego não existia em mim. O que existia em mim era uma vontade louca de explorar. E eu iria explorar o que? Queria ir para algum lugar, não sabia para onde. Tudo o que eu precisava era um empurrão, e a minha prima me deu.
Carol iria com o até então noivo para a Austrália. Ela iria para estudar o Cambridge. “Que legal”, eu pensei. Também gostaria de ir. Nunca tinha saído do país, e o meu sonho era Nova York. No mesmo instante me veio à cabeça: “Vá fazer intercâmbio”. Pronto. Era algo que eu sempre quis, eu tinha a vontade e um pouco de dinheiro. Eu poderia fazer isso. Procurei no Google tudo sobre a “Big Apple”. E logo apareceu um empecilho: nos Estados Unidos não se pode trabalhar e estudar ao mesmo tempo. E eu tinha que trabalhar, afinal a situação financeira da minha família não me permitiria só estudar. Para conseguir isso não seria nada fácil. E para onde eu iria? Ir para a Austrália não estava nos meus planos. Era longe, aliás, do outro lado do mundo. 13 horas de fuso horário, mal daria para falar com a minha mãe. Procurei outros países de língua inglesa. A Grã-Bretanha estava (e ainda está) numa situação de crise econômica. Aí pensei na África do Sul, mas as perspectivas de encontrar trabalho por lá estavam iguais ou piores que as do Brasil. Para onde iria? Canadá. Mas neve, frio extremo não são coisas que eu esteja acostumado. Ainda. Nova Zelândia? Não. Aliás, nem tinha me passado essa idéia na minha cabeça. Tudo me apontava para a Austrália. Tenho uma prima que mora lá há quase cinco anos. Fui perguntar a ela o que eu precisaria para ir ao continente-ilha. “Pergunta para a Carol. Eu estou aqui há muito tempo, não lembro mais. Ela está vindo agora, está em processo de visto e etc. Veja com ela.”. Perguntei então à Carol. Ela me deu um orçamento de mais ou menos quanto eu precisaria. Era quase a quantia que eu tinha no banco. Então fui perguntar para a minha mãe se ela topava me deixar ir.
- Mãe, posso falar com você um minuto? – perguntei meio hesitante, já estava me preparando para ouvir um sonoro “não” à minha proposta.
- Claro, filho. – ela estava calma, e em geral minha mãe é assim, mas quando se trata de dinheiro, a história é outra.
Expliquei a ela que tinha dinheiro e que queria fazer intercâmbio, só não disse onde.
- Pra Nova York não. Aquele povo americano é muito preconceituoso e você com este sobrenome me dá medo. – meu sobrenome é árabe, logo ela ainda tinha, e ainda tem, a idéia de que os Estados Unidos não são pra quem tem sobrenome de países de difícil relacionamento.
E então disse a ela que queria ir para a Austrália. Dei a ela o orçamento que eu tinha recebido. Quanto eu tinha no banco e quanto eu precisaria para realizar meu sonho. Dedos cruzados. Meu coração foi a mil. Não parava de estralar meus dedos, lascar as unhas. Minhas mãos estavam encharcadas de suor. Foi quando ela disse:
- Então você vai para a Austrália!
Só não repito o que escrevi no começo da postagem para não ficar repetitivo. Eu estava indo para a Austrália. O outro lado do mundo. Minha cabeça parou, a única coisa que eu conseguia dizer era:
- Muito obrigado, mãe! – e a abracei. Era o melhor presente do mundo. E eu estava recebendo. Eu estava prestes a embarcar num sonho de muito tempo. O destino mudou drasticamente de lugar, mas ainda assim era um sonho, e eu estava pronto para ir. Pelo menos eu achava que sim.
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